Baleiro

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entre as inúmeras coisas identificáveis que já ouvi, uma delas é que tenho uma multidão dentro de mim.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

"É que Narciso acha feio o que não é espelho"


Numa profusão de coisas, assim parece que a vida nos ocorre. Num passar de segundos, misturados a minutos e horas e que somando se aos meses, formam-se os anos e que juntam-se as décadas, formado assim, uma vida.
Uma vida que se mistura a outras. Desde o nascimento, DNA’s, influências e contexto de uma história. A vida é a soma de partes. É o entrelaçar de conhecimentos, de encontros, de sentidos.

Outro dia me vi pensando em quem sou. Complexo pensamento primitivo humano. Tive a certeza de que sou muitos, dos encontros venturosos que a vida me propiciou e me propicia. Não tenho mais a imaturidade de achar que sei de tudo. Apesar de nunca ter tido, sei que somos, além do tempo, a soma das pessoas.

As influências estão por toda parte, já vieram e ainda virão. São necessárias como o respirar, essenciais. Pobres os que de espírito turvo que acreditam saber tudo ou ter verdades absolutas. Elas simplesmente não existem. São moldadas em nossos quadros de vida. Concebidas por nós e pelos outros quando pensamos de dentro para fora. Já viver, sentir é outra coisa, mais além, profundo.

Eu hoje sei que sou ainda o garoto do jardim de infância, que meio tímido adentrava numa sala de aula(como adentrei a vida). Sou meu amigo da adolescência. Sou aquele que nunca mais vi e aquele que vejo sempre. Sou meus textos e poemas. Sou minha amiga porra louca em noites de papos e porres nas mesas de bares. Sou meu pai, minha mãe e parte dos meus. Sou o amor perdido e encontrado. Sou a recusa de aceitar tudo isso. Queria a originalidade, mas hoje em dia aceito ser a mistura de todos vós.

Admito ser uma variação, uma soma, uma sequência. A continuidade da vida enquanto vivo, enquanto gente. E o quão é simples o que temos de complexo. Ou,o quanto é complexa a simplicidade. Apenas ser é despir-se de si, porque no final somos vários. Identificáveis vamos nos moldando. Mutáveis vamos nos reinventando.

Que venha as novas influências e que eu nunca me acomode tentando ser apenas eu. É pouco, é muito limitador. Aos que acreditam e buscam a reinvenção do tempo e da vida, que fique atento aos demais. O espelho é um objeto narcisista capaz de nos cegar a alma.

As últimas horas


Final de ano, para ser preciso o último dia de 2009. Já passa do meio dia. Um dia chuvoso na cidade maravilhosa, vendo a TV e o jornal impresso senti vontade de fazer uma pequena reflexão sobre a data.

Como é de costume, hoje, 31 de dezembro é uma ode ao que almejamos para o ano que se iniciará. Rituais, desejos e vontades são imprescindíveis, assim como foram as do ano que se encerra hoje. Como ter o controle sobre os nossos planos? É que sou um dos que acreditam na força do acaso e que alguns chamam de destino.

Dia de usar branco, pular ondas, fazer oferendas e pensar em tudo que se foi e planejar o que virá. Não sei se usarei branco, não sei se ficarei pensando no que já foi, e nem se vou traçar metas para 2010.

Sou otimista, muito. Sei que ainda tenho desejos de anos anteriores para que eu os realize. E prefiro não potencializar os novos (e sim, eles existem). Existe um mundo de vontades em mim, pulsantes e capazes de promover mudanças efetivas seja em que período do ano esteja.

Faço um carnaval no réveillon, gosto da energia da data, da crença eminente em mudanças. Das pessoas e seus diversos rituais. Gosto ainda mais do mar, da idéia de imensidão e dos 364 dias de possibilidades que estão porvir. Por excesso de otimismo, acredito sempre, que o melhor também está porvir. E essa data é, sem dúvidas, um bom tempo para isso. Crença em um bom ano, desejos renovados, e outros que com o passar dos dias surgirão.

A impressão que tenho é que esperamos esse dia para expurgar todas as pequenas chateações do ano que está prestes a acabar. Alguns dirão “já vai tarde”, outros, “um ano bom” e por aí vai. Nesse momento entra a história de vida de cada um, suas avaliações internas. Pensar no que foi é uma maneira de olhar para dentro, nesse momento só não vale mentir para si.

Escrevendo esse texto me veio diversos momentos de 2009. Alguns bons, outros delicados. Foi um ano controverso. Passei a acreditar em pequenos milagres e duvidar dos que tem certeza das coisas. Esse ano veio evidenciar o quanto o tempo é veloz.

Os mais místicos acreditam que o ano de 09 está encerrando um circulo e que 2010 é um inicio. Um ciclo que se fecha,que seremos regidos por novos astros, planetas, e deuses.Que venha promissor, que o universo conspire para que alcancemos ideais, realizemos sonhos, desejos. Que continuemos sonhando, desejando e melhorando. Que vivamos com paixão, ela, que é essencial para as relações humanas. Para todo tipo de relação, inclusive, com nós mesmos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A construção de um ídolo


Desde que o mundo é mundo, o homem precisa de seus ídolos e heróis. Mas, pelo que parece a mitificação de alguém em tempos tão midiáticos parece algo difícil, e porque não dizer, impossível.

Todo mundo acompanhou a trajetória de Susan Boyle (aquela que comoveu o mundo e tornou-se celebridade cantando num programa de calouros moderno). Agora um jornalista está afirmando que tudo foi previamente montado e que a história de Susan “é uma farsa”. A fábula do “patinho feio” é sinônimo de sucesso seja qual for o enfoque dado.

Por isso, as pessoas por trás da produção do programa, segundo ele, enfearam ainda mais Boyle e apresentaram para o grande público as adversidades que a vida lhe trouxe. Aquela coisa do público se amarrar em histórias de superação e sucesso.
Não sei até que ponto a acusação procede, mas o fato é que pegando o gancho desse episódio, podemos pensar em quantos ídolos e heróis precisam ser fabricados. Seja para vender produtos ou ideologias, eles são lançados num mundo de interesse devastador e muitas vezes, cruel. Acontece na arte e na política.

Sempre que surge na arena algum novo ídolo, confesso que fico com um pé atrás. Preciso conferir antes para não deixar ser levado pela euforia do momento. Às vezes, o interesse é meramente comercial. Um artista pré-fabricado conta com ingredientes que agradarão aos demais.

Assim como em outros países, aqui no Brasil somos o tempo todo bombardeados com promessas de novos ídolos. Na TV, música, literatura, cinema etc. Porém, nem sempre o anunciado está á altura do que nos ofertam. É vendido muito gato por lebre, como se diz.

Alguns sem talento (ou aquém do divulgado) até permanecem em evidência por bastante tempo. Outros somem rapidamente (para nosso alivio!). Parece que o talento precisa vir acompanhado de outros fatores. Pelo que parece, os novos ídolos precisam ter além do talento, um gancho social que o respalde junto ao público. Que exista uma identificação, uma ponte, um meio, um apelo.

Creio que o talento naturalmente vença as adversidades e que nem sempre todos estão interessados em se produzir em cima das mesmas (adversidades). A britânica Susan particularmente, não me diz nada. O talento dela não me interessa, ela não me desperta artisticamente falando. Mas para os que gostam dela, segue o link do artigo:

http://br.noticias.yahoo.com/s/07122009/48/entretenimento-grande-farsa-chamada-susan-boyle.html

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A gentileza é simples.


Depois de dois “furos” finalmente consegui entrevistar o Sr. Alves (o nosso Gentileza). A entrevista foi marcada para ás 7:30 h da matina, cheguei pontualmente e fui recebido com receptividade. A conversa foi no Papicu (no local que ele exerce o seu oficio de sapateiro há 17 anos).

Em pouco mais de uma hora, escutei uma história de vida interessante. Assim como milhares de outras que tem por aí: luta diária, dificuldades, ensinamentos, alegrias e vida. O que diferencia esse homem dos demais? As palavras.

O senhor de quase 80 anos que apresenta uma vitalidade que impressiona. Desenvolto, ele fala e lembra histórias ocorridas décadas atrás. Ressaltou várias vezes a sua fé em Deus, e a importância do amor e respeito ao próximo. Muitas das palavras proferidas viraram “ensinamentos” no muro em que ele escreve.

A idéia inicial dos escritos era somente para anunciar que ali trabalhava um sapateiro com “serviços de qualidade”. Mas, as palavras e frases foram com o tempo aumentando e despertando a curiosidade dos passantes.

No arsenal das suas frases escritas com uma caligrafia bem particular, o Sr. Alves consegue passar mensagens que dá para refletir a respeito. Alguns clichês, outras frases curiosas e ensinamentos que só o tempo é capaz de nos fazer ter certeza da sua veracidade.

Julgando ser semi analfabeto (ele só fez até a 5° série), conhece como poucos o poder que a palavra tem. A força que tem o que se escreve e crer no poder edificante das mesmas. Gosta de falar sobre coisas boas, mas às vezes é necessário protestar, contra alguns políticos, por exemplo.

Saí de lá com a sensação de que a simplicidade é como um diamante bruto, mas que muitas vezes, não precisa ser lapidado. O Sr. Alves é um desses exemplares.