Baleiro

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Fortaleza, Ceará, Brazil
entre as inúmeras coisas identificáveis que já ouvi, uma delas é que tenho uma multidão dentro de mim.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

"Brasil, meu Brasil brasileiro"


Estou aos poucos lembrando trechos da palestra de Ariano Suassuna (ou seja, ainda “suassurano”). A certa altura, ele falou que estava um dia em casa e teve a infelicidade de ligar a televisão e deparou-se com uma banda chamada Calypso. Recitou ironicamente trechos da música ouvida. E desde então, passou a criticar a banda comandada por um homem chamado “Chimbinha”.

Certa vez, o seu neto falou para ele deixasse de falar mal da banda, pois existiam coisas ainda piores e se ele quisesse mostraria. Assustado com o que poderia vir, Suassuna rejeitou e disse que “tinha medo de ser contagioso”. Decidiu acatar o conselho do neto, mas voltou atrás ao ver uma matéria de capa em um jornal de grande veiculação nacional.

Na matéria, o jornalista afirma que “a banda tem cara do Brasil por ser brega” e que “Chimbinha é um guitarrista genial”. Diante desses elogios, ele ficou estarrecido e faz criticas também ao jornalista que escreveu essa matéria.

Diante desse fato, fiquei pensando nas coisas em que as pessoas acreditam ter e ser “a cara do Brasil”. Geralmente, idéias equivocadas e controversas, já que vivemos num país em que a realidade social é caótica e a cultural é mal disseminada. Já vivemos diversas eras, do sertanejo pop as mulheres frutas. Do Big Brother Brasil a Fazenda. Tudo vendido como parte da nossa cultura, tudo exibido como se fosse uma representação do povo brasileiro.

Então, me pergunto o que de fato conhecerá aqueles que somente têm acesso a cultura massiva? (imposta pela mídia, pelos grandes veículos de comunicação do país). Como saberemos acerca do nosso regionalismo, do nosso sotaque e costumes, se somos retratados em rede nacional por um sulista ou carioca?

Um país que parece comportar outros países. Multiplicidades e diferenças nem sempre respeitadas ou cultuadas devidamente. Além do estrangeirismo dominante, existe o eu estrangeiro dentro do nosso próprio país. Às vezes, conhecemos só o que a mídia apresenta, mas é preciso saber que sempre existe o mas..., o apesar de..., o que estar além do que se vê. Viva aos sotaques, ao regionalismo, a imersão pela cultura local, nacional.

As sábias palavras de Suassuna reavivou em mim o desejo de conhecer mais sobre nós, a fundo e sem disfarces. Sem retoques e sem o poderio da mídia ditando o que devo ouvir, ler, comer e beber. A verdade na maioria das vezes, não está exposta em prateleiras e nem estampada na primeira página de jornal ou revista.

E "viva o povo brasleiro".


Uma platéia lotada a espera de um mestre da nossa Cultura. Ariano Suassuna sobe ao palco do Cine São Luiz sob uma intensa chuva de aplausos, logo, desculpa-se pela voz rouca, agravada por um pigarro, herança do seu bisavô.

Ícone e defensor ferrenho da Cultura Brasileira, especialmente da Nordestina, Suassuna não suporta o estrangeirismo que nos invade de maneira avassaladora. Não consegue digerir o que a mídia que nos passar como sendo “a cara do Brasil”. Nas histórias dele e no cotidiano brasileiro, sabemos que a o Brasil tem sim, outra cara.

Em quase duas horas de palestra com um público receptivo, Suassuna falou sobre os seus mandatos como Secretário da Cultura de Pernambuco. Falou da época que lecionava, da aversão que sente por avião e viagens em geral. Levou imagens de um projeto em que está excursionando pelos mais remotos lugarejos no interior pernambucano. Ressaltou o seu amor á esposa (casados desde 1947) e que o acompanha em todas as suas apresentações. Em breve, essas aulas show completarão 100 apresentações em Exu, terra de Luiz Gonzaga, como ele próprio ressaltou.

Além das geniais histórias contadas, uma palestra de Ariano Suassuna impressiona pela lucidez de um senhor de 82 anos e muitos causos para contar. Extremamente culto e ao mesmo tempo popular, a linguagem dele nos lembra a voz de um homem do campo, de um nordestino (como de fato és) comum. Mas a voz rouca e por horas falha, ganha uma amplidão inimaginável quando proferida as palavras sábias e os relatos engraçados de se ouvir. Sem soberba e sem a vaidade daqueles que acham que estão num patamar elevado, Suassuna fala sobre o povo para o povo. É um pouco de Chicó e João Grilo (seus mais famosos personagens do Auto da Compadecida). É um pouco de um nordestino que vive da sua terra e para sua terra. É um homem possível e de uma cultura que parecer ser infinita.

Quem dera que no nosso país, houvesse mais “Arianos Suassunas”, talvez não fossemos assolados de maneira tão radiante por um misto de cultura que não nos pertence e que nada têm a ver conosco. Certamente seriamos conhecedores da nossa própria História, dos nossos mitos, heróis, da nossa abrangente e rica cultura.

Ao mestre com muito carinho, obrigado por não ter cedido aos que inúmeras vezes foram á sua casa sugerir para que você abrandasse suas críticas ou indicar sobre o que você poderia ou não falar. O senhor Ariano, tem propriedade de sobra para usar a voz do nosso povo e fazer nossa as suas palavras, seja nas suas obras ou nos seus discursos. Reafirmando assim, o meu orgulho de ser nordestino, brasileiro.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Uma quase BBB


As inversões de valores parecem irreversíveis. Veja o caso da estudante da UNIBAN. Sim, a moça do vestido que se transformou numa “Geni” pós-moderna. O que era para ser um protesto contra a ignorância e brutalidade dos alunos que a encurralaram nos corredores da universidade virou mais um meio de autopromoção.

Acompanhando as últimas notícias do caso, a estudante Geisy é a nova celebridade instantânea do Brasil. Hoje, ela participará do Casseta &Planeta. Semana passada participou do tosco programa da Sônia Abrahão num quadro de transformação, foi também na Luciana Gimenez,no Pânico na TV, outros na Record e em breve do Esquadrão da Moda, no SBT. Foi notícia em todos os canais, jornais e revistas do país. Foi convidada para posar nua.

Aproveitando o momento ou não, o fato é que a jovem exposta de maneira animal pelos seus colegas universitários, vem se expondo de maneira ainda mais grotesca e vulgar. Deu uma declaração que irá leiloar o famigerado vestido. Ainda não falou se irá posar nua. Mas alguém duvida que não?!

A atitude dos estudantes da Universidade é absurda, não restam dúvidas. Não existem justificativas e nem porquês. Lamentável constatar que jovens em formação profissional possam ter uma atitude tão medieval. Já a vitimada estudante tem se comportado como uma deslumbrada que está fazendo de tudo para permanecer na mídia.

Em tempos de BBB’S e derivados, saí ganhando quem não precisa ficar confinado por meses para se tornar conhecido. Não importa os meios, nesse caso os fins dão todas as justificativas. Nesse episódio, cada vez mais lamentável, surge uma nova celebridade, torço para que ela seja esquecida em breve.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O clarão que é escuro.


O apagão que se deu em boa parte do país demonstra o quanto precisamos nos preparar para vindoura Copa do Mundo e Olimpíadas que o Brasil sediará. Imagina, se isso acontece durante um desses eventos?

Muita gente teve esse mesmo pensamento. Porém, coisas mais preocupantes foram acesas durante essa escuridão. Um caso que chamou a minha atenção ocorreu no interior de São Paulo, na cidade de Bauru.

Um hospital com seis crianças nas incubadoras não tinha gerador. Das seis, cinco tiveram que ser removidas para outros hospitais, aumentando assim, o risco de morte das mesmas. Uma não pode ser removida por ter sérias complicações caso isso acontecesse. Então, uma emissora de TV local emprestou um gerador para que a criança continuasse no próprio hospital.

A ironia disso?! O hospital está sendo investigado por corrupção. Recebeu uma verba de R$: 16.0000,00 (dezesseis milhões de reais) e pelo que constatamos não foi investido de maneira adequada.

O conhecido bom humor do brasileiro, o fato de fazermos piada de tudo e com tudo, pode muitas vezes nos comprometer. Neste caso sim, a corrupção reinante e a nossa passividade diante fatos escabrosos é absurda. Corrupção mata e quem corrompe é assassino e nós, os corrompidos, somos no mínimo idiotas.

Portanto, antes de pensar na “imagem” do país lá fora, é fundamental resolvermos questões que nos causa mais perplexidade do que algumas horas no escuro. Talvez essa escuridão a gente já conviva com ela diariamente: a violência, o precário atendimento nos hospitais, a miséria entre outros males que são verdadeiros clarões.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Bons ventos: passado e presente.


Sempre que retorno á minha cidade natal sinto um misto de sensações. Um lugar que para mim, é emocionalmente o centro da terra. Primeiros passos, acertos, erros e vivências. Lembro com clareza dos primeiros momentos em que o desejo de partir me assolava. É como se um ciclo tivesse se fechado.

Estive no Iguatu no último final de semana. Algumas mudanças, pessoas “novas”, velhos conhecidos, alguns amigos e familiares. Tudo isso junto, tudo de uma vez. Lembranças me vieram á tona, pessoas, momentos e outras coisas que vivi.
Um drama recente (o acidente do meu pai), e um milagre visível (a recuperação dele), entre tantas outras coisas. Vidas próximas e novas (como o nascimento de mais uma sobrinha) e outras repetições que pude constatar. No interior, o ritmo é outro. Em alguns momentos tenho a sensação de que as coisas são apenas cíclicas. Tinha essa idéia quando lá estava e ainda a tenho sempre que retorno.

Sem pré-julgamentos, críticas ou coisa do tipo, existem pessoas que nasceram para viver desse cotidiano “previsível”. Que a pacata vida interiorana é suficiente. Comigo, deu-se o contrário. Sempre tive o desejo de descortinar o novo e aventurar-me por terras que não conheço. Talvez daí venha inquietude que sempre tive em viver esse cotidiano do interior. Sempre tive uma queda pelo urbano, pela noite, pelo desconhecido. E de onde venho, vejo mais vidas “pré-destinadas”, mais dias do que noite, mais sol do que luas, mais regras do que a liberdade de poder ir e vir, mais repetições do que inovações, mais conhecidos, menos estranhos.

O interior tem seus encantos, suas diferenças e particularidades. Vivi parte delas, sou parte disso e tenho a certeza dessa influência na minha formação e caráter. Algumas coisas só encontramos pelos interiores: alguns termos, sotaques (que faço questão de manter) e estórias, as muitas que ficam mitificadas entre os moradores locais.

Por falar nisso, fui apresentado a minha “rezadeira” (uma simpática velhinha) que minha mãe recorria sempre que eu não estava bem quando criança. Entre o milagre vivido e a renovação da vida, essa apresentação me soou como um excelente presságio.


P.S: a foto que ilustra o texto é de um tradicional café no centro da cidade. O lanche (merenda) é "chapéu-de-couro"(um bolo de frigideira) com café.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cala a boca Caetano!


Alguns artistas deveriam saber a hora de parar e principalmente a hora de calar. Caetano Veloso, reconhecido artista brasileiro e importante ícone da nossa música é um exemplo disso.

De alguns anos para cá, as suas declarações (geralmente tolas) tem mais destaque do que as suas músicas, do que a sua arte. Não se pode deixar de reconhecer á importância da sua obra, do seu legado como compositor. Porém, isso não dá a ele o direito de fazer declarações toscas a respeito dos mais diversos assuntos. A impressão que tenho, é que o intuito é chamar atenção da mídia e trazer para si os holofotes que com o passar dos anos foi se afastando dele.

O seu mais novo “alvo” foi o presidente Lula.Em entrevista ao jornal “Estado de São Paulo”, Caetano disse que Marina Silva “não é analfabeta como Lula, que não sabe falar, é cafona, grosseiro”. Opiniões a parte, o culto cantor deu um belo exemplo de deselegância e grosseria. O nosso presidente pode não ser um exemplo de conhecimento e domínio da língua portuguesa, mas merece respeito, tanto pela sua história de vida, quanto pelos seus méritos no Governo.

Não se trata de uma defesa ao Lula e sim, da extrema deselegância de Caetano Veloso. Da falta do domínio gentil da nossa língua, dos adjetivos chulos que ele utilizou para caracterizar o presidente. Um homem que escreveu a bela letra “O Quereres” entre outras, tem sido mais lembrado nos últimos anos pelas tolices que fala, do que mesmo pelo que compôs durante esse tempo.

Poderia aprender com a irmã (Maria Bethânia), sinônimo de elegância e talento que se renova a cada trabalho lançado. Poderia aprender com o Chico Buarque, baluarte da nossa cultura e comedido com as palavras que profere. Mas Caetano parece mesmo é gostar de criar pequenas polêmicas em declarações inconvenientes e assim, manter-se na mídia.Parafraseando um famoso bordão televisivo: "Cala a boca, Caetano".